• Levo

    comigo os teus olhos.

    — 2019

  • Lusco-fusco

    Um campo a perder de vista . Verde, relva. Flores, feno. Rosa, laranjas. Pássaros, em bando. Vento bandido. O vale, a encosta.

    — Fev, 2018

  • Comboio

    A cidade foge para os cantos da janela. Há uma mulher que fala alto. Portáteis abertos como livros. Livros fechados no colo. Colos que são camas.
    Alguém ouve música alta nos auriculares. Uma rapariga procura o seu lugar. Um rapaz fora do lugar. Lugares vazios. Uma televisão muda que ninguém vê. Malas alinhadas sobre a janela.
    A cidade a fugir pelos cantos da janela.

    — Jan, 2018

  • Perfeito

    Não há pessoas perfeitas mas há umas mais do que outras.

    — 2012

  • Arrependimento

    Nunca te arrependas de ter amado demais. Podem acusar-te de tudo, menos de amar.

    — 2012

  • Um dia

    Seremos corpos. 

    Apenas corpos. Um corpo que nasce do nada para se tornar nada. Existir é só o meio.

    Chegamos, ganhamos altura, sobrevivemos, testemunhamos o mundo e desaparecemos de novo para pó. 

    Guardámos coisas para que um dia elas nos guardassem a nós. Seremos sempre apenas as histórias que alguém contar de nós.

    — 2012


  • Place Jean Jaurés

    Musculatura feminina
    serigrafia
    ergonomia
    espaço negativo
    plástico. madeira. metal.
    gravura sobre matéria
    planificação de livros
    relação da grelha gráfica
    letras capitais
    margens
    bleed
    alinhamento
    início de parágrafo
    subdivisão
    entrelinhamento
    stroke
    sem serifa
    helvética
    marcas de corte
    miras
    Pantone
    futurismo
    grande formato
    offset
    vanguarda
    guardas
    ficheiro
    arte-final
    créditos
    fim de semestre

    — St. Étienne, FR, 2011

  • Novo acordo ortográfico

    Onde o raciocínio excede o sonho: a actual corrente literária portuguesa é completamente e absolutamente absurda. Pobre de forma e carente de conteúdo.

    — 2010

  • Rua Mira-Porto

    Corpos destrocados como moedas por cima da cama. Figuras barrocas despojadas em letras sobre o metafísico dos cantos.

    A respiração do quarto. As gerações dos móveis. Os passos largos no íngreme vertical da rua.

    — 2009

  • À beira

    Leio um livro à beira-mar
    Escrevo um livro à beira-mágoa

    — 2009

  • Um copo de m'água

    Quis entornar o mar num copo e bebê-lo de golada. A esta hora tudo pode ter o teu nome.

    — 2008

  • Despejo

    Não passámos de endereços postais. Reguei noites minhas com o amor que não trocámos. Toquei mãos tuas que nunca vi.

    Passavas junto aos meus olhos quando voltavas e eu com eles fechados era uma casa em despejo.

    — 2008

  • O quintal

    Éramos crianças. Acreditávamos com afinco que o mundo era aquele recorte de quintal e o mar a infinitude das nossas brincadeiras.

    — Abril 2008

  • Dia de finados

    Sou adepta das coisas intemporais.

    Tudo isto provém de uma intenção de olhar para um espaço e imaginar o que se pode fazer nele. A intenção. Nem sempre as melhores intenções dão os melhores resultados.
    Uma música que toca sobe à cabeça, pelos dedos dos pés e costas. Os sons mais abstratos preenchem os dias.
    Branco e azul. Copos de água meio vazios. Murmúrios de longe. Tornar-se em ruas e nomes de cidades e as pessoas dentro delas em dia de finados. Dentro dos olhos fica fácil nadar entre as coisas encruzilhadas como sopas de letras. Repiscar conversas. Encostar um joelho.
    Um assunto leva ao outro e à medida que se vai crescendo decresce a intenção das coisas intemporais. Sobra espaço. Ficam as sobras.

    — Nov 2007

  • Lembro o Outono

    Foi no Outono que vi nos dias o fresco cobre. Onde cada espirro era uma palavra que soluçava a tarde.

    — Jul 2006

  • Estrelas

    Quando as estrelas se apagarem haverá sempre uma avoltar para contar as histórias das outras.

    — 2005

  • Mala

    E é então na manhã que pegas por uma mão na mala que traz versos, alma, carne. Estrada. Esquinas.

    — 2005

  • Diário

    Isto não é um diário. É só um lençol de palavras.

    — 2004